“Você já viu o amor de perto? Pense bem antes de responder. Se algum dia já duvidei da existência desse sentimento tão sonhado por tantos, hoje não duvido mais. Ontem estava conversando com meu avô, e ele me disse: “ê Brenda, tenho sentido uma saudade danada da sua avó”. Só pra colocar vocês no contexto, hoje faz 10 meses que o câncer tirou ela de nós. Continuei a conversa com palavras do tipo “Eu imagino que sim, vô. Mas a gente sabe que ela aguentou tudo que pôde.” Falamos sobre o dia em que ela faleceu. Ele ouviu seu último suspiro, e levantou acordando a casa toda. Me lembro de estar no telefone, e simplesmente jogar de lado, porque no fundo eu, minha mãe e inclusive ele sabíamos que estava chegando a hora dela. E foi minutos depois de ajoelhar no chão e pedir pra Deus “se for pro Senhor levá-la, leva ela dormindo? Pra que ela não sofra mais.”, que ela se foi. Num suspiro, tão rápido. Continuamos a conversar, e ele me contou sobre mal sair de casa, e como nem pensa em arrumar outra pessoa daqui um tempo. Falou sobre os momentos em que fica sozinho em casa serem os mais difíceis, e como é na hora de dormir. Na cama deles, há três almofadas do Elvis Presley (grande paixão da minha avó). Falas do meu avô: “toda noite, eu coloco elas no lugar onde sua avó dormia, e logo acima o travesseiro dela, ao lado do meu. Tomo meu remédio e só durmo com o braço sobre o travesseiro dela. As almofadas são como ela deitada ao meu lado.” Escrevo cada uma dessas palavras com lágrimas nos olhos, porque dói. Quem me conhece, sabe que eu não falo sobre, que não gosto de lembrar. Mas não, não pensem que a história deles foi perfeita. Meu avô era muito brincalhão com ela, e ela toda reclamona. Brigavam todos os dias, por contas, por bobeiras, por tudo e por nada. Mal concordavam um com o outro. Mas uma vez por ano, ele levava ela pra Curitiba, porque ela amava aquele lugar. Porque amava viajar, e ele caminhoneiro desde jovem, sempre a levava quando podia. Porque eram meses de discussão e mau humor em casa, mas duas semanas viajando em paz. E aquilo compensava tudo pra ele. Meu avô nunca foi muito ligado a higiene, o que me faz rir porque sempre brigamos com ele por isso, e roncava demais todas as noites, mas ela nunca deixou de dormir com ele por isso. Estavam longe de serem perfeitos um pro outro, mas havia amor. Daqueles reais, sinceros. E eu vejo na saudade dele, nas orações diárias que ele faz pra ela, e nas missas todo dia 14. Eu vi o amor, por 24 anos da minha vida. E continuo vendo, mesmo que ele não seja mais a dois.”
— Morena

